Hoje assisti a um filme-documentário brasileiro interessante chamado JUSTIÇA. O filme de autoria e direção de Maria Augusta Ramos fala sobre o funcionamento do sistema judiciário do estado do Rio de Janeiro, sendo retratado durante o longa diversos processos criminais em andamento, os quais relacionados a diferentes delitos cometidos por pessoas, na maioria dos casos por jovens do sexo masculino. Com olhar crítico percebomos que a diretora foca sua câmera silenciosa em diversos personagens da vida real que estão de algum modo envolvidas nesse sistema. Jovens pobres, agentes da Lei, familiares dos réus e os mais variados tipos humanos nos são apresentados. Mas o filme, na minha opinião, vai mais fundo.
Ao nos depararmos com essa parcela do sistema estatal do país, nos fica evidenciado que ela parece ter se tornado apenas mais um instrumento repressivo de uma divisão óbvia de classes presente no Brasil. Durante o filme inteiro se percebe que quem senta no banco dos réus são jovens à margem da lei, jovens esses que em sua totalidade são representates de classes desfavorecidas no processo capitalista, o lado negro do sistema sócio-ecônomico que os homens escolheram para guiarem suas relações. Cava-se um abismo entre os réus e os representantes da Lei que, no mínimo cursaram nível superior para chegar aonde chegaram, os quais espelham as classes favorecidas desse mesmo sistema. Perecebe-se uma diferença entre as situações de vida de pessoas que conseguiram encontrar seu lugar no capitalismo e de outras que parecem nem saber o que é capitalismo, demonstrando assim uma falta de perspectiva e autonomia de representantes de classes pobres, autonomia essa que deveria ter sido passada ao longo do desenvolvimento social e intelectual desses jovens, os quais foram oferecidos, de modo precário, pelo Estado. Voltando nosso olhar para a constituição familiar desses jovens percebe-se também a deficiência em relação a esse ponto de suas vidas. Por fim, como disse o professor Darcy Ribeiro, essa classe "que está jogada a própria sorte", parece ser vítima cada vez mais de um processo de desumanização e descaracterização por parte da sociedade brasileira em geral, a qual não tem olhos para ela e para perceber os problemas que daí surgem. Temos que tomar cuidado, pois isso pode destruir o país por dentro, e destruir os padrões civilizatórios que a sociedade, em seu esforço, constrói para uma vivência mais harmoniosa.
30 de agosto de 2008
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